Repertório visual: como ampliar suas referências no design? A resposta pode começar justamente fora dos lugares onde costumamos procurar inspiração. Embora plataformas digitais facilitem o acesso a milhares de projetos, construir repertório envolve mais do que acumular referências de outros designers.
Na verdade, tudo aquilo que observamos pode alimentar nosso olhar.
Uma fachada, uma embalagem antiga, a tipografia de uma pequena loja, um livro, uma fotografia, a arquitetura de uma cidade ou uma combinação de cores encontrada por acaso podem oferecer referências que dificilmente apareceriam quando pesquisamos diretamente por “design de marca”.
Por isso, ampliar o repertório não significa aprender a observar melhor. Levar os olhos para passear.
O que é repertório visual?
Repertório visual é o conjunto de referências, experiências, imagens, linguagens e códigos que acumulamos e que passam a fazer parte da maneira como interpretamos e criamos.
Entretanto, esse repertório não é formado apenas pelo que salvamos em pastas de inspiração.
Ele também se desenvolve por meio dos lugares que frequentamos, dos livros que lemos, das cidades que conhecemos, das obras que observamos e até de elementos aparentemente comuns do cotidiano.
Além disso, duas pessoas podem olhar para a mesma referência e perceber coisas completamente diferentes.
Um designer pode observar a tipografia de uma embalagem. Outro pode prestar atenção na composição. Alguém pode se interessar pelas cores, enquanto outra pessoa percebe principalmente o material ou a maneira como aquela peça envelheceu.
Portanto, repertório não é apenas aquilo que vimos.
É também aquilo que aprendemos a perceber no que vimos.
Por que o repertório visual é importante para o design?
Toda criação parte de algum lugar.
Mesmo quando não percebemos conscientemente, nossas escolhas são influenciadas por referências anteriores. Tipografias que conhecemos, combinações de cores que já vimos, movimentos artísticos, estilos fotográficos e experiências culturais passam a integrar nosso vocabulário visual.
Por isso, quanto mais limitado esse repertório, menor tende a ser o território disponível para estabelecer relações.
Imagine que precisamos criar a identidade visual de um restaurante.
Se nossas únicas referências forem outras identidades de restaurantes, provavelmente encontraremos soluções já utilizadas naquela categoria.
Por outro lado, podemos investigar a origem da comida, os materiais presentes no ambiente, os objetos utilizados no preparo, a cultura daquele lugar, fotografias históricas, embalagens, cardápios antigos ou manifestações gráficas populares.
Assim, o ponto de partida muda.
A pesquisa deixa de buscar apenas como outros designers resolveram um problema semelhante e começa a investigar o universo que pode alimentar aquele projeto.
O cotidiano também pode construir repertório visual
Durante sua palestra no Geek Festival, a designer Aurélia de Azambuja apresenta uma série de fotografias de tipografias encontradas nas ruas.
São placas, fachadas, letras pintadas e composições que chamaram sua atenção durante caminhadas.
Curiosamente, parte do que a interessa nesses exemplos é justamente o fato de que muitos deles não foram criados por designers.
Em algumas peças, alguém precisou fazer as letras caberem no espaço disponível. Em outras, a disposição vertical surgiu porque aquela era a área existente. Além disso, aparecem combinações de cores, proporções e formas que provavelmente não nasceram de um sistema visual cuidadosamente planejado.
Ainda assim, existe design ali.
Existe uma pessoa tomando decisões para resolver uma necessidade de comunicação.
E é justamente essa presença humana que torna muitas dessas manifestações tão interessantes.
O que é design vernacular?
Design vernacular é uma expressão usada para falar de manifestações visuais ligadas ao cotidiano, à cultura local e às soluções desenvolvidas fora dos sistemas formais do design profissional.
Podemos encontrá-lo em placas pintadas à mão, fachadas comerciais, cartazes populares, letreiros, embalagens locais, sinalizações improvisadas e diversas outras formas de comunicação.
No entanto, seu valor como referência não está simplesmente em reproduzir essa estética.
O mais interessante é observar por que aquela solução existe daquela maneira.
Talvez uma letra tenha determinada proporção porque precisava ocupar uma parede inteira. Uma combinação de cores pode ter surgido dos materiais disponíveis. Já uma composição aparentemente irregular pode responder perfeitamente à necessidade daquele contexto.
Dessa forma, o design vernacular nos lembra que nem toda solução visual começa em uma tendência ou em uma referência consagrada.
Muitas começam em uma necessidade.
Observar limitações também pode gerar boas referências
No processo criativo, frequentemente tentamos eliminar limitações.
Queremos liberdade de formato, de cor, de tamanho e de aplicação.
Porém, muitas soluções interessantes surgem justamente porque alguma restrição precisava ser resolvida.
Aurélia chama atenção, por exemplo, para letras que precisaram ser comprimidas ou reorganizadas porque o espaço disponível terminou.
Aquilo que poderia ser considerado uma imperfeição passa a revelar uma decisão.
Consequentemente, observar esse tipo de solução pode mudar nossa relação com as próprias limitações de um projeto.
Em vez de perguntar apenas como contornar uma restrição, podemos considerar se ela própria pode ajudar a construir uma linguagem.
Um formato incomum, um material específico, uma limitação de impressão ou até uma característica arquitetônica podem deixar de ser apenas problemas e passar a fazer parte da solução.
Como ampliar o repertório visual fora das telas?
Não precisamos abandonar Pinterest, Behance, Instagram ou outras plataformas para construir um repertório melhor.
Entretanto, podemos deixar de depender exclusivamente delas.
Uma possibilidade é caminhar prestando atenção na comunicação visual ao redor. Observe placas, embalagens, fachadas, cardápios, cartazes, sinalizações e tipografias.
Além disso, visite livrarias, sebos, exposições, museus e feiras. Livros antigos e materiais impressos permitem encontrar soluções de outras épocas que muitas vezes desapareceram das referências digitais mais recorrentes.
Também vale fotografar aquilo que chama sua atenção, mesmo quando ainda não existe uma aplicação evidente para aquela imagem.
Afinal, repertório não precisa nascer de uma necessidade imediata.
Ele pode ser construído antes de existir um projeto que precise dele.
Referência precisa ter relação direta com o projeto?
Nem sempre.
Essa talvez seja uma das principais diferenças entre pesquisar uma solução e construir repertório.
Ao procurar referências para uma identidade visual específica, existe naturalmente um problema a resolver. Por outro lado, quando construímos repertório continuamente, não sabemos necessariamente onde determinada observação será utilizada.
Uma textura pode permanecer esquecida durante anos até fazer sentido em um projeto.
Da mesma forma, uma solução tipográfica vista em uma fachada pode provocar uma ideia completamente diferente no futuro.
Por isso, referências aparentemente desconectadas também têm valor.
Elas aumentam o número de relações que podemos estabelecer posteriormente.
Repertório visual não é copiar referências
Ampliar o repertório também exige saber o que fazer com aquilo que encontramos.
Uma referência não deveria funcionar como uma receita visual.
Se encontramos uma identidade interessante e reproduzimos sua tipografia, suas cores, sua composição e sua linguagem, não estamos exatamente ampliando nosso repertório. Estamos nos aproximando da solução de outra pessoa.
Por outro lado, podemos investigar o princípio por trás daquela escolha.
O que torna aquela composição interessante?
É o contraste?
A escala?
O ritmo?
A repetição?
A relação entre elementos?
O material?
Ao identificar o princípio, conseguimos transportar um aprendizado para outro contexto sem simplesmente reproduzir sua aparência.
Portanto, uma boa referência não precisa dizer o que criar.
Ela pode ajudar a perceber como pensar.
Como transformar observação em repertório?
Ver muitas coisas não garante, sozinho, um repertório amplo.
É preciso prestar atenção.
Por isso, uma prática interessante consiste em registrar não apenas a referência, mas também aquilo que chamou sua atenção nela.
Em vez de salvar uma imagem simplesmente porque ela é bonita, tente identificar o motivo.
Talvez seja a combinação inesperada de duas cores. Pode ser a maneira como uma tipografia ocupa o espaço. Ou, ainda, o contraste entre um material rústico e uma composição extremamente precisa.
Com o tempo, esses registros ajudam a reconhecer padrões no próprio olhar.
Além disso, eles revelam algo importante: nosso repertório não é formado apenas pelo que existe no mundo, mas também pelas coisas que escolhemos notar nele.
A inteligência artificial pode ampliar o repertório visual?
A inteligência artificial pode ajudar na exploração de conceitos, relações e possibilidades visuais.
Entretanto, ela não elimina a necessidade de repertório.
Na prática, quanto mais referências, conhecimentos e relações conseguimos levar para uma ferramenta, mais caminhos podemos explorar com ela.
Se pedimos apenas uma “identidade moderna e minimalista”, por exemplo, partimos de uma descrição ampla e previsível.
Por outro lado, podemos construir uma direção a partir de materiais, movimentos artísticos, períodos históricos, objetos, características culturais e referências que encontramos fora do próprio universo do branding.
Assim, a IA deixa de ser o lugar onde esperamos encontrar toda a inspiração e passa a funcionar como mais uma ferramenta dentro de um processo criativo maior.
Como construir repertório visual sem transformar tudo em trabalho?
Existe ainda outro ponto importante na fala de Aurélia.
Ela não apresenta suas caminhadas apenas como uma técnica profissional para encontrar referências.
Há prazer em observar.
Ela fala sobre encontrar beleza em lugares inesperados, perceber cores, letras e pequenos acontecimentos visuais no cotidiano.
Isso muda bastante a discussão.
Se toda observação precisa imediatamente virar referência para um projeto, até mesmo o repertório pode se transformar em uma tarefa de produtividade.
Porém, criatividade também precisa de curiosidade sem finalidade imediata.
Nem toda fotografia precisa entrar em um moodboard.
Uma exposição também não precisa necessariamente produzir uma ideia.
E algumas descobertas podem simplesmente existir, sem precisar justificar o tempo dedicado a elas.
Às vezes, simplesmente prestar atenção já é parte da construção do olhar.
Ampliar repertório é aprender a olhar
Um repertório visual rico não depende apenas da quantidade de imagens que consumimos.
Depende da diversidade de lugares onde buscamos referências e, principalmente, da atenção que dedicamos a elas.
As plataformas digitais continuam sendo ferramentas valiosas. Entretanto, o mundo não termina quando fechamos uma aba do navegador.
Existe design nas ruas, nos objetos, nos livros, nas embalagens, na arquitetura, nas limitações e nas soluções criadas por pessoas que talvez nunca tenham chamado aquilo de design.
Por isso, talvez ampliar o repertório visual não seja uma questão de encontrar cada vez mais referências.
Pode ser uma questão de voltar a perceber aquilo que já está ao nosso redor.
Referência
Este artigo foi inspirado por reflexões apresentadas pela designer Aurélia de Azambuja em sua palestra no Geek Festival. Ao longo da apresentação, ela compartilha seu interesse por tipografia vernacular, cores encontradas no cotidiano, materialidade e pela presença humana nas soluções visuais, além de defender a importância de sair das telas para buscar novas formas de inspiração.
A palestra completa pode ser assistida no YouTube:

